💻 Investigação do Fantástico mostra criminosos comercializando logins e senhas roubados de servidores e autoridades; acessos foram testados pelo Ministério Público e considerados funcionais.
Uma investigação do Fantástico, exibida no domingo (30), revelou a existência de um mercado clandestino na internet especializado na comercialização de logins, senhas e credenciais roubadas para acessar sistemas públicos e privados.
Durante um mês, a reportagem acompanhou grupos e fóruns virtuais nos quais criminosos ofereciam acessos a sistemas da Justiça, órgãos de segurança e Detrans. Também eram comercializados os chamados “painéis”, plataformas que reúnem grandes volumes de dados obtidos ilegalmente.
Os valores variavam conforme o nível de acesso. Um login da Justiça de Santa Catarina, por exemplo, era anunciado por R$ 500. Já um serviço que permitiria alterar informações de processos e retirar um mandado de prisão era oferecido por cerca de R$ 1 mil.
⚖️ CREDENCIAIS ERAM FUNCIONAIS
O Fantástico levou as informações ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que já investigava a atuação desses grupos. Com autorização e protocolos de segurança, investigadores testaram algumas das credenciais oferecidas.
Segundo os promotores envolvidos, os acessos eram verdadeiros e funcionais, permitindo realizar as ações anunciadas pelos criminosos.
Em Goiás, a investigação revelou uma situação ainda mais grave. O Tribunal de Justiça identificou aproximadamente 350 acessos fraudulentos e cerca de 140 adulterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão.
As alterações poderiam modificar informações de ordens judiciais e, em determinadas situações, até provocar consequências contra pessoas que não deveriam ser presas.
🚗 MULTAS E DADOS DE VEÍCULOS TAMBÉM ERAM NEGOCIADOS
O esquema não se limitava ao Judiciário.
Criminosos ofereciam acessos a sistemas de segurança pública e a bancos de dados contendo informações como nome, chassi, motor, fotografias e dados de condutores.
Em um dos anúncios acompanhados pela reportagem, um acesso à Secretaria de Segurança do Paraná era oferecido por aproximadamente R$ 110.
Também havia serviços destinados a apagar multas de trânsito ou transferir infrações para outras pessoas. Em um dos casos, um vendedor afirmou que poderia retirar uma multa cobrando metade do valor da penalidade.
🌐 DADOS DE MILHÕES DE BRASILEIROS NO MERCADO ILEGAL
Os criminosos também negociam informações pessoais obtidas em vazamentos. Entre os dados encontrados nos chamados “painéis” estão informações relacionadas a Imposto de Renda, saúde, vacinação, compras online, CPFs, e-mails, logins e senhas.
Pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) monitoram esse mercado e identificaram, somente em 2026, cerca de 18 bilhões de registros expostos.
Segundo os pesquisadores, o monitoramento dessas comunidades permite estabelecer conexões entre diferentes grupos criminosos e auxiliar as autoridades na identificação dos envolvidos.
🕵️♂️ REDE INTERNACIONAL E CRIMES CONTRA VÍTIMAS
Uma das comunidades citadas na investigação é conhecida como “The Com”, uma rede internacional formada por grupos interligados, com participação significativa de jovens, segundo informações do FBI.
Além da venda de credenciais, integrantes dessas comunidades são associados a outras práticas criminosas, incluindo extorsão, sextorsão, venda de armas e compartilhamento de material de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Em uma investigação no Pará, a Polícia Civil identificou integrantes envolvidos nesse tipo de atividade e realizou prisões.
📱 ALERTA DE “MISANTROPIA” FOI ENVIADO APÓS ACESSO INDEVIDO
Um dos episódios mais preocupantes revelados pela reportagem ocorreu em 20 de junho de 2026, quando uma mensagem contendo a palavra “misantropia” foi enviada pelo sistema da Defesa Civil para milhões de celulares.
A palavra significa aversão ou ódio à humanidade.
A Defesa Civil descobriu posteriormente que o alerta havia sido disparado utilizando logins e senhas de dois bombeiros do Pará, que não deveriam estar sendo usados para aquela finalidade.
Segundo investigadores ouvidos pelo Fantástico, a escolha da palavra teria sido deliberada e poderia servir para despertar a curiosidade de adolescentes e atraí-los para comunidades extremistas e criminosas na internet.
🔐 “FATOR HUMANO” É UM DOS PRINCIPAIS RISCOS
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que, mesmo quando sistemas possuem mecanismos avançados de proteção, credenciais legítimas roubadas ou utilizadas indevidamente podem abrir uma porta para criminosos.
Por isso, órgãos públicos vêm reforçando medidas como autenticação multifator, controle de acessos, gestão de credenciais e treinamento de funcionários.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina afirmaram que adotam medidas para reforçar a segurança de seus sistemas.
O Ministério da Saúde e a Receita Federal, por sua vez, informaram que não identificaram evidências de invasão ou comprometimento de seus respectivos sistemas.
O caso expõe um problema maior: não é necessário derrubar toda a infraestrutura de um órgão para causar danos. Em determinadas situações, o uso criminoso de uma credencial legítima pode ser suficiente para acessar informações protegidas e realizar alterações indevidas.



