África está se fragmentando: novo oceano pode surgir em milhões de anos - NACASHOVI NEWS

África está se fragmentando: novo oceano pode surgir em milhões de anos

O continente africano passa por um processo geológico lento, mas contínuo, que poderá, no futuro, resultar na formação de um novo oceano. Cientistas destacam que, embora essas mudanças ocorram em uma escala de milhões de anos, elas oferecem uma oportunidade rara de observar, em terra firme, as etapas iniciais da criação de uma bacia oceânica.

O epicentro do fenômeno: região de Afar

O coração desse processo está na região de Afar, no nordeste da Etiópia, uma área conhecida por seu calor extremo e pela atividade vulcânica intensa, incluindo o vulcão Erta Ale, famoso por seu lago de lava persistente. Afar é um laboratório natural para geólogos, pois é uma das poucas regiões do mundo onde é possível observar o nascimento de um oceano “em terra firme”.

A área é uma tríplice junção tectônica, onde se encontram três placas: Somali, Núbia e Arábica. Nessas condições, a crosta terrestre se estica, surgem fissuras profundas e o manto da Terra exerce pressão constante, empurrando a crosta para os lados.

A África está se partindo? — Foto: Arte/g1

Pulsos mantélicos: o “coração geológico” da África

Pesquisas recentes indicam que o manto terrestre sob Afar não é estático: ele apresenta pulsos rítmicos de rocha derretida, semelhantes a um “batimento cardíaco geológico”. Esses pulsos controlam a velocidade e o padrão de afastamento das placas tectônicas, explicando por que diferentes partes da região se abrem em ritmos distintos.

A interação entre o manto e as placas também alimenta a atividade vulcânica e contribui para a formação de vales, rios e lagos profundos, enquanto enfraquece a crosta, tornando o terreno suscetível a rachaduras e ajustes súbitos.

Grande Vale do Rift: a cicatriz do continente

O Grande Vale do Rift, que atravessa o leste africano por mais de 6.000 quilômetros, é o local mais visível desse processo. Ele corta países como Etiópia, Quênia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo, Zâmbia, Maláui e Moçambique.

A fissuração da crosta já pode ser observada em imagens de satélite, com rachaduras de vários quilômetros de extensão. Pequenos ajustes do terreno podem ocorrer rapidamente, afetando estradas, casas e construções locais, embora o processo geral de separação permaneça extremamente lento, variando de 5 a 15 milímetros por ano — menos da metade da velocidade de crescimento de uma unha humana.

Imagem de satélite mostra o Chifre da África, com Etiópia, Eritreia, Djibuti e parte do Iêmen. Ao centro, o Triângulo de Afar exibe rachaduras formadas pelo afastamento lento das placas tectônicas. — Foto: ESA

Formação futura do oceano africano

Se o processo continuar por milhões de anos, a porção conhecida como “Chifre da África” — incluindo Somália, Eritreia, Djibuti e partes da Etiópia e do Quênia — poderá se separar do restante do continente. A água salgada de mares próximos, como o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, poderá inundar a região, dando origem a uma nova bacia oceânica, semelhante ao processo que formou o Atlântico há cerca de 138 milhões de anos.

Essa nova crosta oceânica representaria o nascimento de um novo oceano, que, ao longo de dezenas de milhões de anos, poderia se tornar tão profundo e extenso quanto os oceanos atuais.

Importância científica e impactos locais

Apesar do cenário grandioso, não há risco imediato para a população humana. Os efeitos perceptíveis ocorrem em pequenos terremotos, vulcões ativos, fontes termais e deformações graduais do solo.

A região de Afar também é rica em fósseis e registros da evolução humana, o que a torna ainda mais valiosa do ponto de vista científico. Estudos geológicos e monitoramentos por satélites, GPS e registros sísmicos ajudam os pesquisadores a acompanhar o ritmo de separação e entender como o manto influencia a crosta continental.

Fluxos de lava ativos descem do vulcão Erta Ale, na região de Afar, nordeste da Etiópia. — Foto: Dr Derek Keir, University of Southampton/University of Florence

Um processo natural e contínuo

Especialistas enfatizam que este fenômeno é uma parte natural da dinâmica terrestre, comparável à separação da América do Sul da África há milhões de anos. Os movimentos lentos do planeta estão constantemente remodelando continentes, oceanos e paisagens, mesmo que quase imperceptíveis em uma escala humana.

Em resumo, a África está lentamente se partindo em duas, impulsionada por processos geológicos profundos, e o que hoje é o Chifre da África poderá, no futuro distante, tornar-se um continente separado, com um novo oceano dividindo o continente. O que parece ficção científica é, na verdade, um testemunho da transformação contínua do planeta Terra.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *