MIAMI – O cenário da governança global sofreu um abalo sísmico nesta semana. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, consolidou sua estratégia de “desidratação” do G20, transformando o fórum das maiores economias do mundo em um encontro focado estritamente em interesses bilaterais e desregulamentação econômica.
A estratégia, apelidada por analistas de “Esvaziamento Estratégico”, atingiu seu ápice com o anúncio de que a Cúpula de 2026 será realizada no resort do próprio presidente, o Trump National Doral, em Miami, em dezembro deste ano.
O Fim do Consenso Global
Desde que assumiu a presidência rotativa do grupo em dezembro de 2025, a administração Trump iniciou uma “limpeza” radical na agenda do G20. Temas que foram pilares das gestões do Brasil (2024) e da África do Sul (2025) foram sumariamente descartados:
- Veto Climático: Os EUA retiraram oficialmente o apoio a qualquer menção ao Acordo de Paris ou metas de descarbonização, substituindo a pauta por “Segurança e Dominância Energética” (foco em combustíveis fósseis).
- Ataque à Pauta Social: Grupos de trabalho sobre igualdade de gênero, combate à fome e taxação de super-ricos foram encerrados. A subsecretária de Estado, Allison Hooker, declarou que o G20 deve “voltar às origens” e focar apenas em crises financeiras e comércio.
- Corte na Saúde: Discussões sobre vigilância de pandemias e cooperação sanitária global também foram removidas da mesa.
Diplomacia de Exclusão
Em um movimento que rompe com décadas de tradição diplomática, Trump confirmou que a África do Sul não será convidada para a Cúpula da Flórida em 2026. A decisão é uma retaliação ao governo de Cyril Ramaphosa, a quem Trump acusa (sem provas fundamentadas) de permitir um “genocídio de fazendeiros brancos”.

Como contrapartida, Trump elevou a Polônia ao status de convidada de honra, sinalizando uma preferência clara por aliados com alinhamento ideológico conservador em detrimento da representatividade regional do Sul Global.
Impacto para o Brasil e o Multilateralismo
Para a diplomacia brasileira, o esvaziamento do G20 representa o desmonte de conquistas recentes. A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada no Rio de Janeiro, perdeu o financiamento e o apoio político da maior economia do planeta.
“Estamos assistindo à transição de um fórum de solução de problemas globais para um balcão de negócios transacionais”, afirma um diplomata brasileiro que preferiu não se identificar.
O Que Esperar de “Miami 2026”
A Cúpula de dezembro deve focar em três eixos principais da agenda America First:
- Cripto e Desregulamentação: Criação de padrões favoráveis ao dólar digital e redução de impostos corporativos globais.
- IA Soberana: Desenvolvimento de inteligência artificial sem as “amarras éticas” propostas pela União Europeia.
- Acordos Bilaterais: Uso do encontro para pressionar por termos comerciais mais favoráveis aos EUA, longe do escrutínio de organismos como a OMC.
O G20, que nasceu para salvar a economia global em 2008, enfrenta agora sua maior crise de identidade: sobreviver como uma ferramenta de cooperação ou tornar-se apenas um palco para a projeção de poder de Washington.










